Alguns comentários sobre Conservação de Tartarugas Marinhas em Cabo Verde

Cabo Verde é um país e uma sociedade que mudam depressa, que têm facilidade de se adaptar aos novos “ventos” que sopram do Mundo ocidental. Essa é, aliás, uma característica histórica que contribuiu e contribui de forma decisiva para a identidade nacional.

A relação da população civil, dos políticos e das autoridades com as tartarugas marinhas está, também, a mudar rapidamente. Hoje, matar tartarugas marinhas em Cabo Verde, embora continue a ser uma realidade, tem já um cunho negativo muito forte, ligado a uma mentalidade retrógrada que alguns ainda teimam em manter.

Matar tartarugas marinhas começa a posicionar-se, na sociedade caboverdiana, ao lado da violência doméstica, da criminalidade urbana, dos excessos da condução rodoviária, etc. O país já não o quer, não gosta, lamenta que aconteça e procura resolver a situação! O recente Atelier no Sal foi um excelente exemplo disso…

Por isso, se na década de 90 e na mudança do século se esperava que a ULPGC, a Natura 2000 e o CSIC estivessem fortemente centrados na protecção directa de fêmeas reprodutoras nas praias da Boavista, hoje o desafio é bastante diferente.

A protecção directa persistentemente propulsionada por Luis Felipe Jurado-López possibilitou, muito provavelmente, que Cabo Verde tenha ainda hoje um dos mais importantes stocks genéticos de Caretta caretta do Mundo. Essa protecção directa terá de continuar, no presente e no futuro, porque a criminalidade sobre as tartarugas marinhas, sobre as pessoas humanas e seus bens, e sobre o ambiente e a biodiversidade existirão sempre, porque são intrínsecas à natureza humana.

Mas hoje o desafio já não se limita à protecção directa, nas praias da Boavista, do Maio, de São Nicolau, do Sal, de Santiago ou de qualquer outra ilha…
… o desafio está em, urgentemente, formar caboverdianos, capacitados sob um ponto de vista técnico e até científico, para se envolverem com sucesso numa tarefa que é cada vez mais um objectivo estratégico do pais, publicamente afirmado e repetido pelos responsáveis do ambiente e do turismo, e consequentemente da economia.

No dia em que o país tiver distribuídos pelas câmaras municipais, pelos departamentos do governo, pelos tribunais, pelas autoridades policiais e militares, pelas escolas, etc., técnicos competentes, preparados para fazer face a esta dádiva e, simultaneamente, a esta responsabilidade que recai sobre Cabo Verde, de conservar este património natural único, o Mundo ficará melhor.

A gestão das tartarugas marinhas enquanto stock genético e património natural não é tarefa fácil. É, até, bastante complexa! Por isso, para que esta estratégia nacional de conservação tenha hipóteses de sucesso, é indispensável que aqueles que ontem salvaram milhares de tartarugas marinhas nas praias da Boavista (e não só), abram com igual energia e convicção uma nova linha de trabalho: formar e qualificar pessoas. Desde o vigilante nocturno de uma praia até ao responsável máximo da Polícia Nacional; desde o professor da escola primária até ao professor da Universidade de Cabo Verde; desde o pescador até ao juiz; desde o pároco até ao ministro. Todos têm de estar suficientemente informados sobre os valores que estão postos nos dois pratos da balança, para poderem decidir e actuar de forma consciente!

O desafio está hoje, e estará no futuro, em formar depressa e bem muitas pessoas, com diversificadas tarefas na sociedade caboverdiana. A qualificação dos recursos humanos nacionais deverá sempre alinhar pela “fasquia” de cima, nunca pela do facilitismo, da falsa simplicidade, da presunção de que haverá alguma incapacidade em dar um passo em frente.

Só assim será possível a Cabo Verde assumir a sua responsabilidade de conservar as tartarugas marinhas, quando as mesmas estão nas águas costeiras e nas praias do arquipélago. À ULPGC, à Natura 2000, ao CSIC, e também à UAlg, pede-se hoje que atingam o mesmo grau de sucesso na formação dos caboverdianos que tiveram ontem na protecção directa das fêmeas reprodutoras de Caretta caretta. E hoje, essas prestigiadas
instituições, têm valiosos parceiros nacionais como, por exemplo, a DGA, a Uni-CV e o INDP…

Nuno de Santos Loureiro
Universidade do Algarve

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