Tartarugas Marinhas

CABO VERDE é bastante importante, no Atlântico Norte, para as tartarugas marinhas.

Actualmente, no Arquipélago, é possível encontrar populações de três espécies de tartarugas marinhas e indivíduos de outras duas espécies.

 

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A TARTARUGA COMUM ou amarela (Caretta caretta) é a espécie mais frequente nas águas e nas praias de Cabo Verde.

Distribui-se por todos os oceanos, desde as águas temperadas até às sub-tropicais. Mas as populações dos Hemisférios Norte e Sul, e dos Oceanos Atlântico, Pacífico e Índico misturam-se muito raramente. Por isso, cada população está quase isolada das restantes e a protecção da espécie tem sempre de ser feita de forma autónoma, ou seja, população a população.

As praias de areia das ilhas caboverdianas são o segundo local no Atlântico Norte para as posturas da tartaruga comum, e um dos mais importantes a nível mundial. Por isso, Cabo Verde tem uma tarefa muito especial para cumprir: assegurar a sobrevivência desta espécie de tartarugas marinhas nas suas águas costeiras e praias de areia. Se o conseguir, cumpre um dos seus deveres mais importantes no domínio da Biodiversidade do Planeta!

Risco de Extinção, a Nível Mundial: VULNERÁVEL

 

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A TARTARUGA VERDE ou cágeda (Chelonia mydas) também foi já comum em Cabo Verde. Pensa-se que esta espécie fazia posturas em quase todas as ilhas. Mas a captura de fêmeas, nas praias, foi muito intensa, durante anos e anos, e hoje já está extinta, ou quase extinta, a comunidade adulta de tartarugas verdes em Cabo Verde. 

cmjuvFelizmente são ainda comuns os juvenis, que se alimentam nas proximidades das ilhas caboverdianas, mas que quando atingem a idade reprodutora migram para outros locais de posturas.

Ao contrário da tartaruga comum, que se alimenta predominantemente de animais, a tartaruga verde é herbívora. As pastagens sub-aquáticas de baixas profundidades são as suas zonas de alimentação preferidas.

Risco de Extinção, a Nível Mundial: VULNERÁVEL

 

A TARTARUGA DE PENTE ou de carapaça levantada (Eretmochelys imbricata) é a outra espécie que é possível encontrar nas águas costeiras caboverdianas. São também juvenis, que migram quando se aproximam da idade sub-adulta.

O seu nome está associado à utilização que tradicionalmente foi dada à sua carapaça: pentes, pulseiras, anéis, aros para óculos e outros enfeites decorativos. Na verdade, se outras espécies de tartarugas marinhas foram capturadas para comer a sua carne, esta espécie era principalmente pelo valor decorativo da sua carapaça.

Risco de Extinção, a Nível Mundial: CRITICAMENTE AMEAÇADA

 

dcbeachA TARTARUGA DE COURO (Dermochelys coriacea) é a maior das tartarugas marinhas. Pode atingir mais de 2 metros de comprimento e pesar 900 kg. É uma das menos conhecidas, porque os seus hábitos de vida são particularmente oceânicos. Alimenta-se principalmente de medusas e de zooplankton gelatinoso, e pode ser encontrada em todos os oceanos, excepto nas águas frias do Ártico e do Antártico. Pertence a uma família distinta de todas as outras tartarugas marinhas.

Em Cabo Verde também se pensa que terá feito posturas nas praias de areia. Mas foi capturada e, consequentemente, a comunidade reprodutora extinguiu-se, ou está em risco crítico de extinção. Ocasionalmente, é possível ver exemplares adultos de tartaruga de couro nas águas costeiras caboverdianas.

Toda a informação disponível indica que, mesmo a nível mundial, as tartarugas de couro estão a desaparecer. Por isso, é indispensável protegê-las, uma a uma!

Risco de Extinção, a Nível Mundial: CRITICAMENTE AMEAÇADA

 

A TARTARUGA OLIVÁCEA ou parda (Lepidochelys olivacea) é a última das cinco espécies de tartarugas marinhas de que podem ser observados exemplares em Cabo Verde. Muito esporadicamente poderá fazer posturas em algumas praias de areia fina e poderá também ser vista nas suas águas, a alimentar-se. Mas, como as tartarugas de couro e de pente, já não é uma espécie comum nesta região.

Risco de Extinção, a Nível Mundial: VULNERÁVEL

 

 

 

UM  POUCO  DE  ECOLOGIA  E  BIOLOGIA

 
A tartaruga comum (Caretta caretta) ter-se-á diferenciado há mais de 10 milhões de anos. Tem assim uma longa história própria de evolução e adaptação ao meio natural, que começou muito antes do aparecimento do Homem…

É uma espécie de distribuição mundial muito alargada, com duas populações divergentes: a do Atlântico-Mediterrâneo e a do Índico-Pacífico. As populações do Atlântico evidenciam também algumas diferenças genéticas entre si, consoante são originárias do Hemisfério Norte ou Sul. É reconhecida a concentração da tartaruga comum sobre os Trópicos de Câncer e Capricórnio, facto que lhe imprime um cariz de espécie predominantemente sub-tropical. Entre todas as espécies de tartarugas marinhas é a que tem a carapaça mais robusta e rígida. Geralmente sobre a carapaça permanecem diversos organismos vivos, como algumas espécies de gastrópodes, crustáceos, algas e, até, peixes.

A tartaruga comum é um grande migrador. No entanto, as fêmeas manifestam forte vínculo geográfico, retornando à praia de origem (ou a uma próxima) para procederem às suas posturas. Os machos também podem manifestar comportamento, semelhante embora não deixem de acasalar noutras regiões, fora da sua colónia de origem, facto que assegura uma saudável variabilidade genética. Por outro lado, as fêmeas acasalam com diversos machos, mesmo no decurso de um ciclo de posturas, contribuindo igualmente para a variabilidade genética.

As características migradoras da tartaruga comum são intermitentes. Imediatamente após a emergência (saída do ninho), correm freneticamente para o mar e nadam, também sem parar, durante horas até atingirem águas oceânicas. Depois entram na fase juvenil oceânica (até aos 15 a 30 anos) e percorrem grandes distâncias, da ordem das dezenas de milhares de quilómetros, muito ao sabor das correntes marítimas superficiais. Quando se aproxima a idade reprodutora, começa a fase juvenil costeira (1 a 2 anos de duração, até atingirem a maturidade sexual). Reduzem então, significativamente, a amplitude dos seus movimentos migratórios, oscilando sazonalmente entre diversos locais de alimentação. Após atingirem a fase adulta, permanecem nos seus locais privilegiados de alimentação e migram para os locais de acasalamento e, no caso das fêmeas, para as proximidades das praias de posturas. Os locais de acasalamento não são muito distantes das praias de postura. Os machos ficam a aguardar as fêmeas e a identificação dos parceiros é feita que por observação visual, quer olfativa. A fecundação é interna e o acasalamento ocorre no mar, durando diversas horas.

Com rigor, devem ser consideradas as seguintes fases na vida da tartaruga comum:

  1. embryo and early hatchling stage – fase terrestre do neonato, desde a postura (embrião, no interior do ovo) até entrar no mar;
  2. hatchling swim frenzy stage (neritic zone) – fase com apenas alguns dias de duração, em que a tartaruga-bébé nada freneticamente, quase sem parar, para atingir correntes oceânicas superficiais e se começa então a alimentar;
  3. post-hatchling transitional stage (neritic zone) – tem início quando a tartaruga-bébé se começa a alimentar e termina quando alcança o ambiente oceânico; é assim uma fase particularmente marcada pela mudança de habitat, do nerítico para o oceânico; pode durar dias, semanas ou meses e está muito dependente das correntes oceânicas superficiais e dos ventos;
  4. oceanic juvenile stage (oceanic zone) – tem início quando a jovem tartaruga amarela atinge o ambiente oceânico e dura entre 6 e 12 anos; nesta fase as tartarugas são predominante epipelágicas; alguns estudos indicam que as tartarugas amarelas passam 75% do tempo numa profundidade inferior a 5 metros e que só excepcionalmente os mergulhos para se alimentarem ultrapassam os 100 m de profundidade; ocasionalmente, quando estão em domínios neríticos, podem ser adoptados comportamentos alimentares bênticos ou mistos; esta fase corresponde à dos “anos desaparecidos” (lost years), nestes termos designada porque é especialmente difícil saber onde se localizam as jovens tartarugas; mesmo assim, é sabido que, no Atlântico Norte, os mares açoreanos e madeirenses, e também os canários, são habitats privilegiados para a fase juvenil oceânica;
  5. juvenile transitional stage (oceanic and neritic zones) – fase em que as tartarugas começam a abandonar os comportamentos epipelágicos e começam a adoptar comportamentos predominantemente bênticos; alguns estudos indicam que o tamanho parece ser o factor determinante para se atingir esta fase: quando os valores de CCL são de 53 cm (46 a 64 cm) as tartarugas amarelas estarão, em pleno, nesta fase de transição entre o ambiente oceânico e o nerítico;
  6. neritic juvenile stage and adult foraging stage (neritic zone) – fase em que as tartarugas adoptam hábitos alimentares bênticos, embora capturem presas ao longo de toda a coluna de água; atinge-se a maturidade sexual e inicia-se o período reprodutivo; as ilhas de Cabo Verde são o segundo local mais importante no Atlântico Norte (o primeiro localiza-se nos Estados Unidos da América), e, para as tartarugas amarelas que fazem posturas nas ilhas cabo-verdianas, parece persistir um comportamento migratório de pequeno curso, entre o ambiente nerítico das ilhas, durante as épocas reprodutivas, e ambientes neríticos fronteiros à Mauritânia, Senegal, Guiné-Bissau, Guiné-Conakry e Serra Leoa, ou ambientes oceânicos entre as ilhas cabo-verdianas e o continente africano, durante as épocas inter-reprodutivas.

O dimorfismo sexual é pouco perceptível. Nos juvenis não é mesmo possível identificar se são machos ou fêmeas. Quando adultos, os machos têm a cabeça sensivelmente maior, uma unha grande e robusta em cada membro dianteiro, a cauda mais longa e o plastrão ligeiramente côncavo. As fêmeas reproduzem-se em intervalos de dois ou três anos (período de remigração). Medições feitas na ilha da Boavista, em fêmeas reprodutoras, apontam para valores de CCL (curved carapace length) de 81,5 cm e de CCW (curved carapace width) de 76,0 cm; são valores muito semelhantes aos medidos na ilha de Santiago: 82,3 cm de CCL e 77,7 cm de CCW. Referências internacionais apontam para dimensões superiores, com 87 cm de CCL.

A tartaruga comum, estima-se, poderá atingir cerca de 65 a 70 anos de vida. Praticamente metade desse período corresponde à fase de imaturidade sexual, e durante a fase reprodutiva as fêmeas podem realizar 10 a 15 épocas de posturas.

As posturas ocorrem quase sempre durante a noite. A fêmea reprodutora sai do mar para uma praia arenosa, preferencialmente com declive acentuado junto à faixa de rebentação, e avança para uma zona não atingida pela água durante as marés altas. É frequente acontecerem saídas sem posturas efectivas, ou seja, em que as fêmeas saem, rastejam na areia e regressam ao mar sem concretizarem a postura. Na mesma noite, ou na seguinte, procedem a novas saídas até que se consuma, finalmente, a postura.

Variáveis directamente associadas aos ninhos, em especial os valores médios da temperatura e da amplitude térmica, e os valores médios da humidade e da amplitude da humidade, são determinantes para o vingamento dos ovos. Diversos estudos apontam para uma relação inversa entre a duração da incubação e temperatura média de incubação. Cada postura oscila entre 60 a 170 ovos e, numa mesma época reprodutiva, cada fêmea pode realizar até 7 posturas sucessivas, intervaladas por 12 a 16 dias. Contagens realizadas na ilha da Boavista apontam para posturas com, em média, 85 ovos. Os ovos têm cerca de 41 mm de diâmetro e o período de incubação é de 45 a 70 noites. Observações realizadas na ilha da Boavista apontam para períodos médios de incubação de 60 noites; nas praias de areia escura da ilha de Santiago os períodos de incubação são inferiores, entre os 47 e os 55 dias.

A temperatura de incubação, que pode oscilar entre os 26 e os 32ºC (óptimo de 29ºC), é igualmente determinante para o sexo dos neonatos (temperature-dependent sex determination – TSD). Temperaturas ligeiramente inferiores ao óptimo, particularmente durante o terço central da incubação, incrementam a percentagem de machos e temperaturas ligeiramente superiores incrementam a de fêmeas. Uma temperatura superior a 35ºC é, em geral, considerada letal para os embriões.

A eclosão dos ovos acontece também predominantemente durante a noite. Alguns estudos apontam para que cerca de 90% das eclosões ocorram durante a noite e as restantes durante a madrugada ou manhã. Em geral, decorrem 4 a 7 dias entre a eclosão dos ovos e a emergência das tartarugas-bébés. Logo após atingirem a superfície, os neonatos, que pesam apenas 19 a 20 gr, apressam-se a atingir o mar, em grupos numerosos. Admite-se que esta estratégia de grupo esteja relacionada com a redução do risco de ataque de predadores. As tartarugas-bebés que nascem durante a noite têm, então, maior probabilidade de sobrevivência, por ficarem menos sujeitas a temperaturas excessivamente elevadas e a ataques de predadores diurnos, como algumas espécies de aves. Estímulos visuais complexos são decisivos para que as tartarugas-bébés rastejem muito rapidamente na direcção do mar. A intensidade luminosa parece ser um dos principais estímulos, provavelmente quando concentrada em linhas horizontais, a um nível semelhante ou mais baixo daquele em que se encontram os neonatos. Na prática, poderá ser a capacidade em identificar a espuma branca das ondas a rebentarem na praia, iluminada pelo luar. Depois de entrarem no mar, as tartarugas-bébés têm também mecanismos eficientes de orientação, mas agora relacionados com a ondulação. Posteriormente, quando se afastam das águas costeiras, deixam de adoptar as ondas como principal mecanismo de orientação e começam, por fim, a movimentar-se tendo especialmente em consideração o campo magnético da Terra.

Os progenitores têm uma relação com a descendência muito ténue. Os machos limitam-se ao período de acasalamento, para além das migrações entre as zonas de reprodução e as de alimentação, e as fêmeas têm um comportamento semelhante, apenas acrescido do período que decorre até à postura dos ovos. A partir desse momento não se verifica qualquer relação parental, pelo que os progenitores não têm qualquer contacto efectivo com a sua descendência.

É reconhecido o facto das tartarugas marinhas retornarem, para a reprodução, aos locais onde nasceram. Por vezes, retornam à mesma praia. A fixação a esses locais de nascença poderá ocorrer durante a fase de neonato, especialmente quando as tartarugas-bébés ficam a alimentar-se relativamente próximo da praia de origem. Não são ainda totalmente compreendidos os mecanismos de localização das praias ou zonas de origem, mas admite-se o recurso a sistemas magnéticos, que lhes são também úteis durante as rotas migratórias.

As tartarugas marinhas, como qualquer réptil, respiram por pulmões. Em geral permanecem debaixo de água apenas por períodos de 4 a 5 minutos, mas podem mergulhar e nadar debaixo de água durante 20 minutos, em caso de necessidade; e se estiverem em repouso, submersas, podem manter-se sem respirar durante horas. Têm capacidade de atingir grandes profundidades, quando mergulham; alguns estudos registam, para os adultos, profundidades da ordem dos 230 metros.

As tartarugas marinhas têm visão e olfacto apurados, logo desde a eclosão, o que lhe permite encontrar alimentos e reconhecer os locais onde se encontram ou por onde passaram. Nas faces, abaixo dos olhos, têm glândulas excretoras de sal muito activas, que lhe permitem eliminar os excessos de sal provenientes da água do mar que ingerem.

As tartarugas comuns são omnívoras, alimentando-se de animais, vertebrados e invertebrados, e de algas e plantas vasculares. A dieta alimentar varia ao longo da vida, sem nunca deixar de ser tão variada quanto possível: os neonatos e juvenis que escolhem áreas oceânicas abertas, onde abunda o sargaço (Sargassum), e deixam-se transportar pelas correntes quentes, geralmente mais ricas em alimentos. Alimentam-se, também, de animais, como medusas, e de outros organismos gelatinosos. Os juvenis neríticos e os adultos preferem águas mais próximas das faixas costeiras, especialmente sobre substratos rochosos ou com recifes coralíneos; igualmente as baías costeiras, ricas em produtividade biológica, são ocasionalmente escolhidas. Incorporam na sua alimentação organismos bentónicos, como moluscos, crustáceos, lulas, polvos, camarões, ouriços-do-mar, insectos, esponjas e até peixes.

O longo intervalo de tempo que é necessário até ser atingida a maturidade sexual das tartarugas marinhas faz com que sejam espécies muito sensíveis, quer ao decréscimo de efectivos, quer mesmo à extinção. É igualmente muito lenta a recuperação, em resposta à redução das pressões sobre as populações de tartarugas marinhas. Uma incorrecta gestão, seja das próprias tartarugas marinhas, seja das suas praias de postura, áreas de alimentação, etc., pode ter consequências cuja avaliação não é, nem imediata, nem simples. Por isso, a gestão integrada é um dever, se não mesmo uma obrigação, de todos os países que, como Cabo Verde, têm o privilégio de anualmente acolher tartarugas marinhas em fase reprodutora!

A protecção de adultos, fêmeas e machos, e de juvenis em idade próxima da maturidade sexual, é sempre uma primeira prioridade de conservação. Cada uma desses indivíduos vivos e saudáveis significa, afinal, a certeza de centenas ou milhares de ovos, ou seja, a continuidade da espécie!

 

 

esta página conta com o apoio do oceanario

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